06 3 / 2013

Preconceito na sala de aula

Uma amiga querida, professora de informática, me mandou o seguinte desabafo [grifos meus]:

Estou farta de tanto preconceito, machismo e falta de empatia a minha volta.

Hoje aconteceram tantas coisas ao mesmo tempo que eu nem sei mais o que pensar.
Um professor, que dá aula comigo não veio hoje trabalhar, por que o filho estava doente e ele ia levá-lo ao médico e a esposa dele tinha uma reunião importante. Ele me telefonou e perguntou se eu poderia cobrir uma de suas aulas e ver se outro professor cobriria a outra e assim eu fiz. Até ai, tranquilo. Foi quando eu ouvi AS cordenadorAS do curso dizendo que era muita irresponsabilidade dele por não ter vindo e que quem deveria levar a criança ao médico era a mãe e não o pai, justamente por isso as empresas preferem homens ou mulheres SEM FILHOS! Eu não disse nada para não brigar, mas isso ficou engasgado.
Na minha primeira aula do dia, uma aluna me procurou, aos prantos, dizendo que havia sido espancada e que ela não poderia fazer nada por que a mãe não estava do lado dela e que ela temia pelo irmão. Uma menina que parecia não ter esperança no futuro. Disse a ela que ajudaria no que fosse possível e que lhe apoiaria se ela quisesse denunciar o abuso. Ajudei-a a fazer um currículo e tentei, por um momento, tirar o mundo das costas dessa menina.
Na minha aula da tarde, um dos alunos começou a “ofender” o outro, dizendo que ele se parecia com o Justin Biber. Esse outro rapaz retrucou dizendo que se ele estava tentando ofender, não estava conseguindo, pois ele achava o cantor muito bom. Foi ai que o primeiro começou a falar(tudo sic): que o Cantor é ‘viado’ e que ‘viado’ não pode ter moral nenhuma, por que não é coisa de deus. Neste ponto eu interrompi e disse que a vida e a orientação sexual de uma pessoa não interferiam naquilo que ela é. Ele insistiu que essa coisa de ‘viado’ não é coisa de deus. Falei dos animais, que tem práticas homossexuais, e ele no maior estilo pastor disse que não existia gene de ‘viado’. Eu cortei o papo e disse que eles estavam proibidos de destilar qualquer tipo de preconceito na aula e que todos eles deveriam fazer uma pesquisa sobre gênero e orientação sexual e trazer na próxima aula.
Esse mesmo aluno, intimida as outras meninas da escola, encara, canta, etc. Começou a me chamar de professorinha e outros diminutivos e ele ficou muito bravo quando eu lhe disse que eu exigia respeito e que ele deveria me chamar de PROFESSORA ou pelo MEU NOME, sem diminutivos.
Em uma turma de noite, em outro dia da semana eu tenho que explicar toda aula que só tem homem na sala, por que eles parecem urubu em carniça sobre as meninas que entram no curso. Nem mesmo as pessoas que passam pela sala eles respeitam.
Em uma turma aos sábados, que também só tem homens, tive que lutar muito para ser respeitada, minimamente.
Eu sou a única mulher que dá aula de informática avançada na escola, muitas vezes, meus colegas duvidam que eu possa resolver um problema e tentam de tudo antes de pedir ajuda para mim.
Não sei o que fazer. Não sei se eu estou implicante demais ou se o mundo é tão, tão, mau.
Estou chateada, estou irritada. Estou com problemas na coluna, mal consigo andar, mas quando eu faltei (com atestado) por causa disso, já vieram me perguntar se eu estava grávida, se ia ficar faltando, etc.
Aqui, eles exigem que trabalhemos de vestido (curto e justo) e salto alto. Odeio usar vestidos justos e curtos, me sinto mal, como se estivesse sem roupa. E não posso usar salto. Todos os dias tem alguém para dizer que eu não sou FEMININA, por que não ajustei esse vestido, nem diminui a barra, ou por que uso uma “papete” como calçado.
Eu tenho depressão e quando vou ao médico peço para que ele coloque outro CID no atestado, por que caso contrário eu serei taxada de louca ou de frescurenta, como seu QUISESSE ficar triste.
O que é tudo isso? É só minha depressão falando ou é o mundo mesmo que está irritantemente machista e preconceituoso?
Nos últimos dias este blog tem recebido muitos comentários de professoras passando pelas mesmas dificuldades da minha amiga. Se você é educador ou educadora e gostaria de compartilhar sua história, escreva pra cá ou envie pelo formulário do blog
Neste post-depoimento, as lindas e lindos que comentaram deram boas dicas e conforto para a garota em dificuldades. Vamos tornar isso uma tradição neste blog! Vamos nos unir e fazer a diferença!

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